Sou abençoada com os médicos que tenho.
De cara, não acredito em tirania. Portanto, não combino com médicos severos, ditadores, negativistas, que te expoem todos os riscos e te "cobram" atitudes ameaçando com uma sentença de morte na outra ponta da linha - como se a morte não estivesse na outra ponta da linha pra todos nós... E nos culpabilizam, nos responzabilizam por todos os males.
Eles só esquecem que estar obeso, ter a vida limitada, ser ridicularizados, rejeitado, cobrado pela sociedade e por si mesmo já é um castigo enorme! Proporcional ao nível da obesidade. E a obesidade, pra maioria, é igual ao cigarro: a culpada de todos os males, sempre: você tem asma desde criança, mas só ficou assim porque engordou... Você nasceu com o pé torto, mas se não fosse gordo ele teria endireitado... E por aí vai...
Não estou dizendo que a obesidade não é um problema. É, sim. Enorme. E em todos os níveis.
É um problema pra comprar uma roupa. Começa com a escolha de um lugar onde a gente não pague o mico de ser olhada como aberração, até a sorte de ter algo que junte bom gosto e nosso tamanho, terminando com o preço que é, sempre, muito mais alto que os outros tamanhos...
É um problema afetivo já que a maioria das pessoas olha antes de mais nada, do 1º ao 10º lugar, a embalagem - e a nossa está, obviamente, avariada... E nesse quesito, não dá pra fazer como nas roupas e levar "elke" - "elke couber..."
É um problema social, já que na maioria dos lugares as cadeiras são lindas, desconfortáveis e... pequenas. Estamos sempre tendo que pedir "uma cadeira sem braços, por favor"... e se for daquelas horrorosas, de plástico... quer coisa mais desagradável que ter que colocar duas, uma dentro da outra?
Com tudo isso, naturalmente, é um problema de autoestima, também. E como não ser, se você vê que a roupa não caiu bem, que o gato está paquerando sua amiga, que as pessoas nem sempre te chamam porque "tinha que andar muito", "o espaço era pequeno", "não aguentava muito peso"?
Isso, se você tiver a sorte de não passar pelo bulling. De rirem na sua cara, tirarem onda e ser chamada de baleia, rolha de poço, barril, etc... Tudo aquilo de que chamam você, pelas costas e você finge que não sabe... Já basta os carinhosos gordinha, fofa, cheiinha..
E nem falei dos problemas de saúde. Dores musculares, nas articulações, fôlego curto, hipertensão, sobrecarga no coração, amenorreia, etc, etc, etc...
Com tudo isso, o que mais precisamos é de cúmplices. Cúmplices que nos ajudem a superar tudo isso, a desenvolver uma autoestima saudável, a superar os medos ou problemas que nos afastam da solução definitiva da obesidade. Cúmplices que vejam além da casca, que tenham, no mínimo, humanidade e entendam todos os desconfortos que já estamos passando.
Por isso me sinto abençoada com os médicos que tenho. São competentes, seguros e cúmplices. Meu cardiologista faz tempo que me incentiva a fazer a cirurgia. Ele diz que quer me ver voltar a ser quem eu era. E que não está falando só do físico, mas da alegria, da energia, do olho brilhando... Voltei lá há alguns dias e falei que quero ver se agora faço a cirurgia, mas me preocupa o fato de não ter conseguido perder os 20 kg que o cirurgião quer. E ele disse que não me desestimulasse, porque em 2 anos muita coisa mudou, as técnicas evoluíram e talvez seja possível fazer por vídeo mesmo sem perder esses 20 kg... Saio de sua sala sempre energizada, renovada... Levei meus filhos ao pneumologista. E foi o próprio médico que me convidou a ir fazer os testes com ele. Me estimulou, disse que cada dia que perco é um dia de minha vida que deixo de aproveitar, contou casos de sucesso... Saí de lá me sentindo outra...
E minha terapeuta é um caso completamente à parte... Além de cuidar do meu juízo (ou falta dele), ela cuida do alinhamento de chakras, da revitalização energética. E já se propôs a ir comigo para fazer a endoscopia e mesmo durante a cirurgia. Preciso dizer o quanto isso me deixa mais segura, mais tranquila?
Fora da área médica, tenho alguns cúmplices importantes, também. Meus filhos não deixam de reforçar o quanto querem me ver bem. Minha filha faz planos de como vai poder cuidar de mim durante a recuperação, ou de como vai assumir as responsabilidades da casa nesse período. Minhas assistentes, idem. Alguns amigos me oferecem a casa deles para eu ficar durante a convalescênça... Mesmo que nada do que eles propõem possa ser feito, vale o reforço, o carinho, o cuidado...
Eu queria que todo mundo entendesse a importância disso. Se as pessoas entendessem que, ao contrário do título do livro de dietas, ninguém é gordo porque quer, com certeza seriam mais generosas com os obesos. Pode até ser por indisciplina, mas ninguém escolhe ser indisciplinado a ponto de colocar sua saúde, sua vida em risco. Nem mesmo um dependente químico - existem outros fatores que levam a essa indisciplina, irresponsabilidade, compulsão, ou como queiram chamar...
.
E a cura da maior parte desses fatores passa por um caminho simples... Amor.