Desde que decidi fazer a cirurgia, minha cabeça virou um turbilhão.
A ansiedade me consome, queria que já estivesse tudo marcado, que a cirurgia fosse semana que vem. Queria já ter perdido pelo menos metade dos quilos que devo perder. Queria que fosse mágica... Mas sei que não é.
Sei bem a longa trilha que se abre à minha frente. E que ela vai percorrer florestas densas e despenhadeiros profundos. Não é de agora que penso na cirurgia, portanto isso já foi muito trabalhado em terapia. E por isso mesmo, a surpresa de ter ficado tão mexida com a decisão. Ela despertou velhos fantasmas e trouxe à tona uma enormidade de inseguranças e medos que eu julgava já completamente vencidos. Tenho me sentido vulnerável e fragilizada como há muito não me sentia. E me dei conta de que, na verdade, adiei a decisão esperando ficar mais forte.
Porque não é a cirurgia em si que me assusta. Me assusta o desconhecido. E a solidão do caminho. Me assusta ter que lidar com todas as coisas que me trouxeram a um estado de super obesidade. Me assusta a perspectiva de mudança, de me despir dos escudos. E o medo de não conseguir atingir as metas. Me assusta a falta de colo, de ombro, de toque, de voz...
Porque não é a cirurgia em si que me assusta. Me assusta o desconhecido. E a solidão do caminho. Me assusta ter que lidar com todas as coisas que me trouxeram a um estado de super obesidade. Me assusta a perspectiva de mudança, de me despir dos escudos. E o medo de não conseguir atingir as metas. Me assusta a falta de colo, de ombro, de toque, de voz...
Para mim é surpreendente como nos grupos de gastroplastia se fala pouco sobre sentimentos. Todo mundo compartilha dúvidas e metas. Todo mundo diz o quanto está feliz com os resultados. Mas não vi ninguém falar das inseguranças. Mudar não é fácil. E enfrentar uma mudança tão radical da auto-imagem é ainda mais complicado.
Tenho me dado conta de como é fundamental o suporte emocional. A questão material é, também, importante. Mas se sentir acolhida, protegida, ter com quem partilhar todo o processo é fundamental. Saber com quem vai contar durante o processo pré e pós-operatório, saber que vai ter alguém ali, torcendo, ajudando, cuidando, curtindo cada progresso é talvez o primeiro passo para o sucesso do empreendimento.
Mas sou consciente que cada um tem seu próprio ritmo de vida e não estou acostumada a incomodar os outros com meus problemas. Minha filha tem um ritmo de vida corrido, um salário apertado e pouca disponibilidade de tempo. Meu filho é um grande companheiro, mas trabalha com arte (=salário pequeno e incerto), além de não ser exatamente um "chef de cuisine"...
E eu fico pensando em uma série de dificuldades e como resolvê-las.
- como fazem as pessoas que, como eu, não cozinham nem têm quem prepare sua dieta?
- como se preparam as pessoas que, como eu, não têm um salário e foram pegas de roldão pela crise do país?
- como fazem aqueles que não contam com ninguém para acompanhá-los no hospital ou nos primeiros dias?
- qual o nível de dependência de ajuda - e por quanto tempo - a pessoa vai ter?
- com que rapidez é necessário repor o guarda-roupa - coisa difícil quando não se tem dinheiro disponível?
- qual o custo da dieta e dos medicamentos? algum medicamento consta da farmácia popular?
- que alterações de humor podem ser desencadeadas?
- quanto tempo de repouso será necessário - sobretudo quando se depende exclusivamente do que se puder produzir e não se tem reserva financeira?
- que despesas serão necessárias para o pré e pós-operatório?
E, a cada dia, espero me livrar de um medo ou um fantasma.
A cada dia espero me fortalecer mais e mais para que essa luta seja vencida.
A cada dia sou grata por aqueles que, mesmo silenciosamente, torcem por mim.
Ainda me sinto no limbo, na estreita faixa entre a decisão e o início do processo. Semana que vem vou à nutricionista e volto ao cirurgião com todos os exames feitos.
E, então, poderei dizer que foi dada a largada.
01 / 03 / 2017
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