Nem mesmo fui uma adolescente ou jovem gorda.
Ok, não era magricela e, em alguns momentos estive um pouco acima do peso. Mas nem de longe cheguei perto de ser obesa. Quando, aos 16 anos, resolvi procurar uma endocrinologista pois me achava muito gorda, tudo quanto ela me mandou perder foram... 5 quilos. E não gostou nem um pouco de eu ter perdido 8 kg.
Foi meu primeiro contato com a quebra dos estereótipos;
- esqueça aquela história de 10 kg a menos que altura. Tudo depende da sua estrutura óssea. No meu caso, segundo a médica, por ter uma estrutura óssea larga e pesada, eu jamais deveria seguir esse padrão. Meu peso ideal é o mesmo da altura. Ou seja, como tenho 1,68 m, deveria pesar entre 65 e 68 kg. Pelo menos na adolescência. Diminuí de 70 kg para 62 Kg, fiquei magérrima e assim me mantive por algum tempo.
Oscilei um pouco de peso na juventude. Mas, mesmo quando me achava gorda, não estava com um sobrepeso maior que 10 kg. Nesse período, comecei a perceber que quando estava mais relaxada eu emagrecia, mesmo comendo coisas absolutamente inadequadas, e que o estresse me engordava. Isso ficou bem evidente depois de umas férias em Curitiba, no inverno, me empanturrando de quentão, chocolate quente, massas e morango com chantilly...voltei pra casa quase 5 kg mais magra.
Em 1988 perdi meu emprego. Abri um restaurante em sociedade com minha mãe. Meu pai teve sérios problemas cardíacos pouco depois e fez 2 pontes de safena. Em resumo, o estresse passou a fazer parte da rotina. E com ele, comecei a ganhar um pouco mais de peso. Ainda nada drástico.
Mas quando engravidei de meu primeiro filho, em 1990, eu já estava acima do peso. Nem engordei tanto na gravidez. Em princípio, poderia ter recuperado a forma. Mas perdi meu filho, que nasceu prematuro de 7 meses e meio, poucas horas depois do nascimento. E não havia mais nada que eu pudesse perder. Na verdade, em um mês e meio perdi minha avó, meu filho (4 dias depois) e meu avô. Sem falar que minha gravidez foi extremamente tensa devido ao estado de saúde de meu pai.A partir daí, foi um caminho sem volta.
Minha filha nasceu 13 meses depois de minha primeira gestação. E, após 1 ano e 10 meses nasceu meu caçula. E eu não consegui perder nem mesmo um grama nos intervalos. A gravidade da saúde de meu pai aumentava. Minha rotina era correr do trabalho para o hospital, passando em casa para ver as crianças. Meu pai faleceu poucos dias antes de meu filho completar um ano.
Algum tempo depois, meu casamento acabou, minha empresa foi fechada e comecei a me dedicar a uma atividade profissional totalmente diferente mas que sempre desejei exercer. Não perdi peso, mas também não engordei mais. Oscilava de peso, mas hesitava em considerar a hipótese de uma cirurgia bariátrica porque acreditava que ela se destinava apenas a quem come muito. Também nada era tão desconfortável assim...
As pessoas me diziam para "fechar a boca". E eu insistia que não era o excesso de comida que me engordava. Não tinha uma alimentação super saudável, mas mesmo as "porcarias" que eu comia não justificavam meu excesso de peso. Eu tinha disposição para a maioria das coisas que sempre fiz. Até que tive um revés muito grande: perdi, ao mesmo tempo, um trabalho ao qual dediquei energia, tempo e dinheiro por 2 anos, meu sócio e melhor "amigo" (assim eu acreditava).
O meu problema de peso se agravou, pois tive psoríase na sola dos pés e durante cinco longos anos, além da medicação à base de corticoide, meus pés descamavam e sangravam. Eu tinha que enfaixar os pés para poder pisar no chão. Eles inchavam tanto que tive que comprar uma sandália quatro números maior que o meu. Foi um período de muito sofrimento, que se refletiu em meu físico. E eu comecei a considerar seriamente a possibilidade de fazer a bariátrica.
Três anos depois voltei ao cirurgião, definitivamente decidida. E ele me mandou perder não 15... mas 20 Kg!. Tentei tudo de novo. Refiz os exames, peguei o parecer cardiológico: tudo em ordem. O parecer pneumológico deu risco 1 ("O mesmo de atravessar uma rua"), Parecer psicológico, melhor impossível. Cheguei a perder um pouco de peso (nem de longe o que o médico queria!). Mas minha mãe teve graves problemas de saúde e, como filha única, não havia a menor condição de eu fazer uma cirurgia. Ao contrário: parei todas as minhas atividades para cuidar dela, que faleceu um ano depois.
Desde então, minha vida mudou drasticamente. Devido ao excesso de peso - junto com a crise em que o país mergulhou - não consegui voltar ao mercado de trabalho. Fiz uma seleção para trabalhar em uma Universidade, mas faltou verba e quase todos os contratados foram demitidos bem antes do prazo mínimo estipulado. Eu, inclusive. E as coisas foram ficando cada vez mais difíceis, tanto material quanto emocionalmente falando. Tive que aprender muito nesse período, uma mudança radical de padrão de vida. Cheguei muitas vezes perigosamente perto da loucura.
Uma amiga conversou com meu atual cirurgião, Dr. Pedro Cavalcanti, sobre mim - Nos conhecemos desde a adolescência, apesar de não nos vermos a muitos anos. Ele aconselhou a deixar diminuir o furacão para podermos cuidar de mim. Enquanto isso, o enorme volume de problemas foi gradativamente aumentando meu isolamento e minhas limitações. Tentei de todas as formas reverter as limitações materiais para poder cuidar da saúde.
Até perceber que estava na contramão.
Tenho que cuidar da saúde para poder reverter os problemas materiais.
A outra opção é engordar mais e mais até morrer. Assim, apesar das enormes limitações financeiras, estou aproveitando que consegui manter meu plano de saúde e dedicada a fazer a cirurgia. Tenho consciência da maratona que vai ser e do quanto precisarei do apoio emocional (e até financeiro) para conseguir obter os resultados pretendidos.Mas estou decidida.
Quero recuperar minha saúde.
Quero minha vida de volta!
12.Fev.2017

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